Resposta de Gabriela Egito ao meu texto sobre "Slumdog Millionaire"
Vitor, tou contigo. Pra mim tb foi uma decepção total assistir "Slumdog". Pelo pouco q tinha ouvido falar, achei q seria algo mais profundo. Além disso, assisti antes aos concorrentes (“O caso curioso de Benjamin Button”, “Dúvida”, “O Leitor”) e todos são bem melhores. Portanto, me senti enganada. O início é impactante, anuncia uma grande história. Claro q nas cenas de favela percebe-se uma influência de "Cidade de Deus", embora o diretor Danny Boyle insista em negar. As imagens, coloridas como os sáris das indianas, enchem a tela. A pobreza é linda (se é q isso é uma qualidade) e tudo muito bem editado. Não há falhas técnicas. Mas o filme vai passando e nada de substancial é mostrado. Tudo me pareceu muito superficial. Parece que escreveram o roteiro assim: o que de pior pode acontecer com alguém nesta cena? É meio gratuito. Truques baratos de dramaturgia rasteira. O tema do filme, que seria destino x sorte, aparece de forma tímida, não é bem desenvolvido. O espectador precisa conhecer a cultura indiana, saber sobre o sistema de castas (q não é citado em momento algum) pra entender a relevância da discussão. Senão, fica espetáculo pelo espetáculo. Diversão pura e simples, sem recheio. E, infelizmente, foi isso que aconteceu. Enfim, é tudo tão globalizado e sem personalidade que a história poderia se passar em qualquer país de terceiro mundo, não necessariamente na Índia. Será que é isso mesmo? A globalização está dizimando as tradições? Até as milenares? Dá mesmo a sensação de que já assistimos a esse filme milhares de vezes: o mocinho pobre vence todas as adversidades, fica milionário, em nome do seu amor puro pela mocinha (ex-)virgem. Por favor! Considero Slumdog um retrocesso dramatúrgico. Tentando ver um lado positivo, talvez a única coisa boa seja Hollywood abrindo as pernas pra filmes que não são 100% em inglês. Por outro lado, considero grave: tive a impressão que o filme foi feito sob encomenda para conquistar o mercado indiano. É uma peça de marketing, assim como a criação do personagem Zé Carioca para conquistar brasileiros desavisados na década de 40. Utiliza elementos dos filmes de Bollywood, sem demonstrações de intimidade física, tudo bem maniqueísta mesmo. A cena mais tétrica é qdo o protagonista, ainda pré-adolescente, é pego depois que os turistas americanos que ele estava ciceroneando têm o carro depenado. Tudo obra dele, combinado com outros trombadinhas. Jamal solta essa: "Vcs não queriam conhecer a Índia? Essa é a verdadeira Índia". E os turistas americanos o protegem das pancadas da polícia, o abraçam e dão um bom dinheiro, completando: "E essa é a verdadeira América". Argh! Tive vontade de levantar e ir embora. Sinceramente, tb prefiro a novela da Glória Peres. É mais honesta, ingênua num bom sentido, e divulga (mesmo que à maneira ela) uma cultura milenar. Atenciosamente, GABRIELA EGITO
- Postado por: O Vitor viu... às 14h12
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